Crônica de natal

Crônica de natal

História Real: As fotos perdidas

A poucos dias me confrontei com uma notícia que me reportou pro ano passado. Um pai, que após perder a filha e o genro ainda muito jovens em um trágico acidente de trânsito, pedia em todos os meios de imprensa para a devolução do celular da vítima, porque não tinha nenhuma foto da sua filha com o neto recém nascido e ninguém da família tinha fotos da filha falecida com o próprio filho pequeno que havia sobrevivido. A notícia é triste, mas me transportou para atos tão comuns nossos, da nossa geração atual – consideramos tudo como eterno, como resolvido.

Com a mania de guardar fotos em dispositivos digitais e muitos de nós estamos perdendo registros.

Mas para te explicar por que essa história mexeu tanto comigo, vou te contar a minha. 

Antes  preciso que você saiba de uma informação fundamental – tive meus dois filhos com o intervalo de 1 ano. Nos anos de 2008 e 2009. Quando fiquei grávida da Valentina, a mais nova, o Bernardo, o filho mais velho tinha 3 meses. Muitas pessoas me perguntavam como que eu não tinha ganho bebe ainda e já estava na segunda gravidez. Isso fez com que uma ânsia de registrar tudo, por medo de perder os detalhes, momentos de um deles fosse algo iminente em mim.

Assim o mais velho, com a irmã ainda do lado de dentro da barriga teve seus primeiros álbuns organizados metodicamente. Quando a Valentina chegou, as pastas com as fotos digitais da gravidez semana por semana estavam todas organizadas no notebook. E assim as fotos do nascimento, das primeiras semanas, visitas, tudo lá, guardado e documentado. Amanhã mando imprimir, tenho que fazer seleção. E nesta correria os dias iam passando e sempre era uma das metas do fim de ano. E naquele processo meio doido da maternidade não priorizei montar os álbuns dela, já que eram muitas fotos.

Nisso eu e o pai deles acabamos nos divorciando e a preocupação com as memórias e registros daquele período ficaram ainda mais importantes, já que eles eram muito pequenos.

Em 2013, quando a Valentina tinha 4 anos de idade, nos mudamos para a cidade de Gramado/RS. Na mudança meu notebook caiu e enfim, não ligava mais. E aqui começa a história de natal da minha filha. Mesmo eu procurando todos os técnicos para conserto, ninguém conseguia acessar o disco rígido, placa ou sei lá qual era o nome do computador. E com isso, todas as fotos dos meus filhos até seus 4 e 5 anos de idade não existiam mais. Quase como um incêndio que destrói tudo. Com exceção do álbum do nascimento do Bernardo. Mas a Valentina não tinha nenhuma foto sequer com a família, o pai, os avós e nem mesmo do nascimento. Guardei o notebook sempre na esperança que um dia conseguiria resolver. Quando a Valentina ia na escola e tinha que levar foto em dia dos pais, dela bebê, sempre era o mesmo martírio.

Quando aprendeu a rezar, ela pedia toda a noite, as fotos dela pequenininha. Não adiantava em nada mandar imprimir fotos pra ela daquele momento, era como se não houvesse registro dela bebê, na minha barriga.

Quando começou a escrever, todas as cartinhas pro papai noel, durante muitos anos, foram pedindo as fotos dela bebê. E cada carta que o Papai Noel recebia, meu coração quase se partia. Por que eu tentava negociar por uma boneca, mas nada, nada adiantava.

 Após 6 anos e duas idas e vindas do computador a São Paulo, conseguimos acessar as fotos. E no natal do ano passado, o Papai Noel entregou um álbum com mais de 300 fotos impressas para a Valentina. O presente na verdade maior foi pra mim, por que foi como se tivesse conseguido salvar uma história, uma lembrança e dar a ela, os natais da infância da minha filha.

Nenhum dinheiro paga a primeira vez que ela viu uma foto de eu grávida dela e segurando o irmão bebê no colo através de uma foto e ver pequenas lágrimas correndo pelo rosto pequeno dela.  – Mãe era assim?! Ela viu a própria história.

  • Mãe, agora tenho foto para mostrar pra prô!

Nas promessas, foto nunca fica na memória digital, foto foi feita pra ser tocada, olhada com os olhos do coração. São lembranças e não imagens. E como são importantes. São valiosas pois registram sentimentos, pra sempre.

Feliz natal filha!

Marcela Muttoni

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